sábado, 10 de setembro de 2011

Um Hemisfério numa Cabeleira
Deixa-me respirar muito, muito tempo, o aroma dos teus cabelos, aí mergulhar todo o meu rosto, como um homem alterado na água de uma nascente, e agitá-los com a minha mão como um lenço oloroso, para sacudir recordações no ar.
Se pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que escuto nos teus cabelos! A minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens na música.
Os teus cabelos contêm todo um sonho, pleno de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me transportam até climas deliciosos, onde o espaço é mais belo e mais profundo; onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto enxameado de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todas as formas recortando as suas arquitecturas finas e complicadas sobre um céu imenso onde se aloja o eterno calor.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, na cabina de um belo navio, embalados pelo enrolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os jarros de água refrescantes.
No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco misturado com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul escuro tropical; nas margens de penugem da tua cabeleira, embriago-me com os aromas combinados do algodão, do almiscar e do óleo de coco.
Deixa-me morder por longo tempo as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordo os teus cabelos elásticos e rebeldes, tenho a impressão de comer saudades.
Charles Baudelaire

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